Neste sentido, apelamos às autoridades competentes, em particular as da área da saúde, que retomem o trabalho dedicado à implementação da Estratégia de Saúde para as pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo, elaborando outros capítulos e adotando mecanismos de fiscalização e monitorização da sua implementação. Procurar um profissional de saúde nunca é fácil, mas para lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e queer (LGBTQ), a busca é especialmente desafiadora. Diante de cuidados inadequados – e às vezes hostis –, muitos pacientes LGBTQ são compreensivelmente relutantes em compartilhar sua orientação sexual e identidade de gênero. A população LGBT, devido à não adequação de gênero com o sexo biológico ou à identidade sexual não heteronormativa, tem seus direitos humanos básicos agredidos, e muitas vezes se encontra em situação de vulnerabilidade. Diante dessa realidade, o Ministério da Saúde reconhece que a identidade sexual e a identidade de gênero são constituintes de um processo complexo de discriminação e de exclusão, do qual derivam os fatores de vulnerabilidade, tais como a violação do direito à saúde, à dignidade, à não discriminação, à autonomia e ao livre desenvolvimento (Brasil, 2008b, p. 571). Integrante do Comitê Técnico Estadual de Saúde Integral LGBT, Rafael Sann atuou como agente Redutor de Danos por três anos em um programa municipal de combate à AIDS acompanhando usuários nas unidades de saúde e constatou as melhorias na prestação dos serviços de saúde pública ano período.
Infelizmente, não há uma maneira fácil de avaliar a familiaridade de um médico com os cuidados LGBTQ. Leia mais A maioria dos pacientes precisará fazer sua própria lição de casa para encontrar um médico que cuide da sua saúde. Descubra os segredos de A Rede Feminista de Saúde (2006, p.21) destaca que o sofrimento psíquico desencadeado pela violência física na família, no trabalho e em lugares públicos pode ser observado mais frequentemente nas mulheres lésbicas do que nas heterossexuais.
Ela não tem nada a ver com identidade de gênero, pois um homem pode se identificar como mulher, e mesmo assim, manter relações afetivas e de cunho sexual com outra mulher. A saúde mental e a comunidade LGBTQIAP+ Discutir a saúde mental no Brasil ainda é um debate extremamente estigmatizado, rodeado de preconceitos e até falácias.
A falta de compreensão e sensibilidade por parte dos provedores de saúde pode levar à negligência ou ao tratamento inadequado, resultando em consequências negativas para a saúde sexual dos indivíduos. Uma tese de doutorado, apresentada na Faculdade de Medicina da USP, mostrou que a oferta de serviços de saúde no Brasil é desigual e piora conforme gênero e orientação sexual da população, principalmente entre aqueles com mais de 50 anos. Isso mostrou vulnerabilidades nos cuidados da saúde e no acesso aos serviços de bem-estar para o grupo que se identifica como LGBTQIA+. Ser parte dessa comunidade, hoje, significa ter o pior acesso à saúde disponível no País, inclusive dentro do Sistema Único de Saúde.
A palavra gay é utilizada para designar a homossexualidade masculina, ou seja, homens que mantêm relações afetivas e sexuais com outros homens (Brasil, 2004). Barbosa e Koyama (2006) problematizam a falta de estudos sobre a saúde da mulher lésbica em território brasileiro, sendo que os estudos a esse respeito estão concentrados nos Estados Unidos. Durante a revisão sistemática desses estudos, as autoras apontam os diferentes problemas de saúde enfrentados pelas mulheres homossexuais. O documento Brasil sem Homofobia utiliza o termo lésbicas para designar a homossexualidade feminina, ou seja, mulheres que mantém relacionamentos afetivos e sexuais com outras mulheres (Brasil, 2004).
A comunidade LGBTQIAP+ historicamente teve direitos, pautas, particularidades e dificuldades largamente desconsideradas, já que a própria existência plural e diversa era vista como ilegítima. Descubra agora Contudo, evidencia-se, felizmente, cada vez mais nas mídias, nas discussões sociais e na arte, a representação fiel desse grupo social e o destaque das suas experiências diárias, inclusive no que diz respeito à saúde mental de jovens e adultos LGBTQIAP+. Segundo dados relativos à investigação internacional, as pessoas LGBT são frequentemente marginalizadas sofrendo com frequência desigualdades em saúde. Uma interação complexa de fatores sociais, culturais e políticos é a responsável pela falta de equidade em saúde destas populações. As normas socioculturais heteronomativas, originam o stress de minorias (associado à orientação sexual, identidade de género e características sexuais, vitimização, discriminação (individual e institucional) que funcionam como base do fenomeno de estigma que estas populações sofrem (Zeeman et al., 2019). A ILGA Portugal lembra neste primeiro Dia Nacional da Saúde Sexual que o acesso à saúde, e em particular à saúde sexual, é um direito fundamental e que a prestação de cuidados e serviços adequados tem de garantir o acesso universal e não discriminatório.
A discussão sobre o processo de adoecimento da população LGBT também requer a especificação dos conceitos de identidade sexual e identidade de gênero. Miller (2002) enfatiza que a abreviatura LGBT pode ser enganadora, já que o primeiro grupo (LGB) se refere à categoria de lésbicas, gays e bissexuais, que devem ser compreendidos como identidades sexuais. E o segundo grupo, representado pela sigla T, é utilizado para se referir aos transgêneros (transexuais e travestis), que devem ser compreendidos como formas de identidade de gênero. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, dois em cada três entrevistados (67%) já sofreram algum tipo de discriminação motivada pela identidade sexual ou pelo gênero, proporção que alcançou 85% em travestis e transexuais. Os dados desse documento também apontam que 14,5% dos participantes do estudo feito na Parada Gay de São Paulo relataram já terem sofrido algum tipo de preconceito nos serviços da rede de saúde (Brasil, 2008b).